Em uma conversa reveladora com o diretor Judd Apatow, após a exibição do documentário “Man on the Run”, Paul McCartney compartilhou suas reflexões sobre o difícil período que enfrentou após o fim dos Beatles em 1970. Durante o bate-papo, que teve a participação do cineasta Morgan Neville, McCartney comparou o término da banda à sensação de perder o único emprego que teve ao longo da vida.
“O que você faz depois dos Beatles? Os Beatles acabam, esse foi o único trabalho que você já teve e, então, você não o tem mais. É como se você tivesse sido demitido”, afirmou o músico. Esse sentimento de desorientação o levou a buscar novos caminhos, resultando na formação da banda Wings.
A ruptura não afetou apenas sua carreira, mas também sua vida pessoal. McCartney revelou que, após o término da banda, se mudou para a Escócia e começou a beber em excesso enquanto tentava lidar com a nova realidade. “Foi como uma espécie de colapso mental. Comecei a beber. Estava sozinho na Escócia, com uma pequena família recém-formada. Ninguém ia me repreender por beber demais”, recordou. Ele reconheceu que o apoio dos filhos e de Linda McCartney foi crucial para que ele mudasse seu comportamento.
O ex-Beatle também destacou a dificuldade de se desvincular da dinâmica do grupo. “Acho que estar sozinho foi muito assustador, porque eu sempre tive a união do grupo. Então precisei descobrir como faria aquilo e como tornaria tudo diferente”, explicou. McCartney chegou a considerar criar músicas semelhantes às dos Beatles e reunir outros músicos, mas acabou rejeitando essa ideia.
Nos palcos, sua resistência em tocar sucessos dos Beatles também foi notável. Apesar da pressão de produtores para incluir canções como “Yesterday” em seu repertório, McCartney só passou a incorporar essas músicas após consolidar sua nova fase, especialmente com o sucesso de “Band on the Run”, do Wings.
A banda, que surgiu em 1971, foi inspirada por uma apresentação de Johnny Cash que McCartney assistiu na televisão. Ele convidou Linda, sua esposa, para formar o grupo ao seu lado. “Nós aprendemos juntos. Essa era a grande coisa: subimos os degraus juntos”, relembrou, mencionando as críticas que enfrentaram pela decisão.
Com o tempo, McCartney percebeu que não poderia reproduzir a mesma dinâmica coletiva que existia nos Beatles. “Eu queria simplesmente ser um cara igual aos outros, mas isso não funcionou”, disse, reconhecendo que precisou assumir a liderança criativa do Wings. “Eu era um Beatle, e eles não eram. Então, sim, eu precisava ser o chefe”, concluiu.
A conversa ocorreu após uma sessão especial do documentário “Man on the Run”, que revisita a trajetória de McCartney entre o fim dos Beatles e os anos de Wings, utilizando imagens de arquivo e depoimentos em voz, uma abordagem elogiada pelo próprio cantor durante o evento.



