A Diocese de Caxias do Sul nomeou, em julho, o primeiro padre encarregado do Ministério do Exorcismo na Serra Gaúcha: Daniel D’Agnoluzzo Zatti, pároco da Paróquia São Ciro. Desde então, ele já começou a receber pedidos de atendimento.
Em entrevista ao Pioneiro, Zatti explica que seu trabalho está mais relacionado ao acolhimento e discernimento do que às cenas dramáticas frequentemente retratadas pelo cinema. O atendimento inicia-se com a busca por uma explicação natural para os problemas apresentados pelos fiéis. Quando a situação parece conter elementos incomuns, o fiel pode ser encaminhado a uma equipe multidisciplinar composta por psiquiatras, psicólogos e neurologistas.
“Quando uma pessoa é acolhida e percebe algo estranho em sua vida, encaminhamos para o comitê científico, que faz uma avaliação médica e psicológica antes de qualquer intervenção religiosa”, detalhou Zatti. Somente após essa avaliação, se não for encontrada uma explicação plausível, o caso pode avançar para uma oração exorcística.
O processo, segundo o padre, é realizado em conjunto com uma equipe e segue rigorosas regras de confidencialidade. Ele desmistifica a ideia de que o exorcismo envolve gritos e violência, afirmando que a realidade é muito mais serena. “Acredito que a primeira desmistificação é sobre um caráter hollywoodiano do momento”, afirmou Zatti.
Ele revelou que apenas uma pequena fração das pessoas que procuram o sacerdote chega à etapa do chamado Exorcismo Maior, estimando que entre 5% e 10% dos casos chegam a essa fase. Zatti, que é mestre e doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), reforçou que a Igreja Católica entende o demônio como uma realidade espiritual. “Os demônios são seres angélicos que se afastaram de Deus”, explicou.
Na tradição católica, o padre classificou três formas extraordinárias de ação atribuídas ao demônio: obsessão, vexação e possessão. Ele enfatizou que a identificação de cada uma dessas manifestações requer um processo de investigação, e que a possessão, por exemplo, refere-se à dominação do corpo, mas não da consciência ou da liberdade da pessoa.
“O exorcista deve ter uma equipe que o auxilie no primeiro discernimento. É imprescindível o papel da psiquiatria, da psicologia, da medicina e das neurociências”, destacou. Zatti também alertou que muitos problemas cotidianos podem ser erroneamente interpretados como influências sobrenaturais, afirmando que a maioria das pessoas que acreditam estar sob influência extraordinária na verdade se deixaram levar por superstições.
O Exorcismo Maior é um rito da Igreja Católica e não uma prática individual do sacerdote. Zatti enfatizou que o foco do exorcismo não é o demônio, mas a libertação da pessoa. “O protagonista principal é sempre Jesus Cristo”, afirmou.
Os atendimentos podem ser repetidos conforme a avaliação de cada caso, e o padre ressaltou que o sigilo é uma das principais preocupações durante esses atendimentos, a fim de proteger a privacidade dos que buscam ajuda.
A nomeação de Zatti para o cargo não foi resultado de uma busca pessoal, mas um convite do bispo de Caxias do Sul, Dom José Gislon. “Foi um pedido que me fez, e eu acolhi com surpresa e constrangimento”, compartilhou o padre, que decidiu aceitar a missão após refletir sobre a proposta.



